Os principais
motivos que causaram a estagnação econômica na região, segundo Braga (1999),
serão a seguir relatados para que se possa obter uma compreensão mais
abrangente sobre a dinâmica econômica do Vale do Ribeira.
Segundo o autor,
em 1850 o complexo rural dominante no Estado de São Paulo era o cafeicultor,
até então concentrado no Vale do Paraíba. Paralelamente o complexo de cultivo
de arroz no Vale do Ribeira vinha se expandindo. No entanto, com a proibição do
tráfico negreiro em 1850, desencadeou-se uma crise no complexo rural,
afetando-o de maneiras diferentes as duas situações.
A cafeicultura
manteve sua hegemonia avançando para o oeste do Estado, formando a partir de
1870 um novo sistema denominado “complexo cafeeiro paulista” (Cano apud Braga, 1999). Este, por sua vez,
incorporou famílias de imigrantes em um novo regime de trabalho, o “colonato”:
o colono era um trabalhador assalariado temporário que, fora do período da
colheita, produzia em sua roça produtos para sua própria subsistência e gerava
um excedente comercializado na região.
Já no Vale do
Ribeira, com a proibição legal do tráfico negreiro, o preço do escravo subiu
consideravelmente. Este encarecimento foi agravado ainda pelos altos impostos
instituídos para evitar a evasão da mão-de-obra de uma província para outra.
Desta forma, tais barreiras tributárias acabaram estimulando a transferência de
escravos das regiões menos dinâmicas para as mais dinâmicas economicamente, ou
seja, das zonas não cafeeiras (como era o caso do Vale do Ribeira), para as
zonas cafeeiras.
Outra
consideração importante a ser ressaltada é em relação a malha ferroviária
paulista. Sua expansão acompanhou a marcha do café rumo ao oeste, deixando de
lado as regiões não cafeicultoras. Isto aconteceu principalmente devido ao fato
de que o capital ferroviário era em sua maior parte privado e oriundo da
cafeicultura. Assim, o Vale do Ribeira ficou fora desse processo, sendo que o
primeiro ramal ferroviário só chegou à região em 1912, apenas até Juquiá.
No entanto, o
complexo de cultivo de arroz contava com um sistema de navegação fluvial, base
do sistema de transportes regional até o início do século XX. A produção era
escoada pelo rio Ribeira para o porto de Iguape e então para o porto de Santos.
Era o único meio eficiente de ligação da região com o exterior, sendo que as
ligações por terra permaneceram precárias até 1940.
Além disso, em
1852, com a conclusão da abertura do Canal do Valo Grande, ocorreu o
assoreamento do porto de Iguape comprometendo seriamente o sistema hidroviário
do Ribeira e impedindo o acesso de navios de grande porte. Embora o rio Ribeira
fosse a principal via de comunicação, o porto de Iguape não se localizava na
foz do mesmo. Desde o início do século XIX, os comerciantes reivindicavam a
construção de um canal (2,5 km) ligando o rio ao porto. A abertura do Canal do
Valo Grande desencadeou um
violento
processo de erosão e já em 1903 um rápido processo de assoreamento havia tomado
o porto por completo, inviabilizando a entrada de navios.
Figura 6: Antes da abertura do canal do
Valo Grande
Figura 7: Depois da abertura do canal
do Valo Grande
Desse modo,
Iguape passou a perder seu papel de entreposto comercial e o arroz produzido na
região, passou a ter uma colocação no mercado mais dificultada. Assim, sem
estradas e ferrovias e com uma navegação problemática, a região foi se isolando
cada vez mais do restante do Estado.
No final do
século XIX, tem-se o seguinte quadro de desenvolvimento regional em São Paulo:
a zona cafeeira escravista do Vale do Paraíba em decadência, a zona rizicultora
escravista do Vale do Ribeira também em decadência, e, as novas zonas cafeeiras
do oeste em desenvolvimento, apoiadas no trabalho do colono imigrante e em uma
eficiente rede de transporte ferroviário.
De acordo com
Petrone apud Braga (1999), o Vale do
Ribeira foi pioneiro em experiências de colonização, em sua maioria
fracassadas. O Núcleo Colonial de Pariquera-Açú, por exemplo, recebeu grupos de
ingleses, alemães, poloneses e russos. Estes imigrantes ficaram pouco tempo e
mais tarde partiriam para as zonas cafeicultoras do planalto. O fracasso da
colonização européia na região é explicado pelo isolamento que dificultava o
escoamento da produção, inviabilizando o desenvolvimento das culturas
comerciais; condições físicas pouco satisfatórias (clima quente e úmido pouco
convidativo aos europeus); desilusão face à realidade encontrada (prometia-se
uma terra que não condizia com a realidade); pouca duração das experiências, o
que dificultou o
enraizamento dos
colonos; e, a heterogeneidade das colônias (grupos reduzidos e heterogêneos).
Neste momento
histórico, o café era a única cultura comercial capaz de justificar a
implantação de infra-estrutura e fixar os colonos no Vale do Ribeira. A
cafeicultura foi tentada, porém fracassou na região, pela dificuldade de
circulação e acesso aos mercados e a restrita aptidão ecológica da região para
o café, o que restringiu investimentos em transportes. Aliado a estes fatores,
o aniquilamento da navegação com o assoreamento do porto de Iguape,
contribuindo, ainda mais para o não desenvolvimento econômico da região.
De acordo com
Braga (1999), após a decadência da rizicultura e o fracasso nas tentativas de
colonização e introdução de uma lavoura comercial (o café), o Vale entrou em um
período de estagnação sócio-econômica e assim permaneceu até aproximadamente
1940, quando a agricultura começou a ser reincorporada à economia estadual com
a implantação de culturas comerciais como o chá e a banana, desenvolvidas pela
colonização japonesa.
A colonização
japonesa iniciou-se no Vale do Ribeira em 1912. O governo paulista firmou
acordo com a Companhia Imperial Japonesa de Imigração, visando a colonização da
região. Em 1918 foi criada a KKKK – KaigaiKogyoKabushikiKaisha Companhia
Ultramarina de Empreendimentos, filial da Companhia Imperial, que passou a ser
responsável pela colonização, diferindo-se esta totalmente das experiências
anteriores, pois surgiu com apoio governamental e sob a coordenação de uma
poderosa organização como a Companhia Imperial.
A KKKK trouxe
agrônomos do Japão e instalou campos experimentais de cultivo, distribuía lotes
de forma racional de forma que os colonos tivessem acesso à água e uma
localização razoável, orientando assim, a colonização de forma integral. Além
disso, a empresa proporcionava assistência médica e escola para os colonos.
Visando o
escoamento da produção, a KKKK construiu uma rede de estradas ligando as
colônias aos portos fluviais de Registro e Sete Barras, além de abrir uma
estrada ligando Registro à Juquiá para que se pudesse atingir o recém
inaugurado ramal ferroviário até Santos. Os japoneses pouco se voltaram para o
litoral, seus interesses voltavam-se ao planalto onde estavam os melhores
mercados. Desta forma, o eixo econômico que desde o século XVI, direcionava-se
do interior para Iguape pelo rio Ribeira, transversalmente à costa, passou a
correr paralelo ao litoral, de Registro para Juquiá e então, por via férrea,
para Santos. É assim que Iguape perde a primazia da região para Registro, que
torna-se a nova “capital” do Vale do Ribeira.
A imigração
japonesa causou um impacto considerável na dinâmica do desenvolvimento da
região. A partir da década de 1930, os cultivos do chá e da banana irão se
desenvolver, reincorporando a região ao mercado. No entanto, esta reintegração
foi tardia, pois a região já havia perdido a “oportunidade histórica” de
integrar-se ao ritmo paulista e que neste momento iniciava uma nova fase, a
industrialização. Assim sendo, o Vale do Ribeira que já havia ficado “à margem
do império do café”, ficou também à margem da industrialização, permanecendo
como região subdesenvolvida.
A partir da
década de 50, o Estado passou a intervir na economia com políticas de
desenvolvimento para a região, as quais culminaram com a criação da SUDELPA –
Superintendência do Desenvolvimento do Litoral Paulista, em 1969, conforme já
mencionado anteriormente, e, desde então, políticas governamentais objetivando
o desenvolvimento do Vale têm sido fomentadas até os dias de hoje.
Fonte: BRAGA, Roberto. Raízes da questão regional no Estado de São
Paulo: considerações sobre o Vale do Ribeira. Trabalho originalmente
publicado em: Geografia. Rio Claro:
AGETEO, 1999.



